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Flywheel Training é REALMENTE melhor?

Foto do escritor: Blog Prof. Wellington LunzBlog Prof. Wellington Lunz

Atualizado: 25 de mar.


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Prof. Dr. Wellington Lunz

Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Para eu explicar o flywheel training (flywheel = volante) preciso, antes, fazer uma introdução sobre o conceito de isoinercial. E, claro, esse post responderá a questão do título.

Recentemente, fui procurar na internet uma figura representativa do ‘treinamento isoinercial’ e me assustei com o tanto de ofertas de cursos, com layouts sofisticados, apresentando o treinamento isoinercial como a mais NOVA revolução do mundo fitness. E por que o susto?

Bom, se considerarmos a etimologia da palavra, iso (= mesmo) e inercial (= resistência), temos que isoinercial significa ‘mesma resistência inercial’. Ou seja, uma carga que mantém sua inércia ao longo do movimento.

Lembremos que a inércia de um objeto é dada exatamente por sua massa, a qual representa sua resistência à mudança de movimento (conforme a primeira lei de Newton).

Em sua definição mais básica, isso também inclui qualquer exercício com pesos livres e várias máquinas de academias dependentes da aceleração da gravidade (todas que você coloca peso ou pino). Isso porque a resistência do objeto não muda durante a execução.

Se lá no paraíso do antigo testamento bíblico, Adão tenha eventualmente feito algumas flexões de cotovelo com a maçã que recebera de Eva, teríamos que afirmar que Adão realizou ações isoinerciais.

Afinal, a maçã, que pesa ~1 Newton, não muda de peso ao longo das repetições.

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Fleck e Kraemer (2017) inclusive classificam o clássico treinamento de força com carga externa constante (ex: pesos livres) como sendo isoinercial.

Aliás, muitos artigos científicos usam o termo ‘isoinercial’ em substituição ao uso historicamente equivocado do termo ‘isotônico’ para classificar exercícios com pesos livres.

O que esses vendedores de curso isoinercial estão vendendo é, na verdade, o treinamento baseado em máquinas que usam o sistema flywheel. O que é a tecnologia flywheel?

As máquinas flywheel utilizam um volante de inércia para gerar resistência, e não pesos convencionais. Envolve uma engenharia que se assemelha ao brinquedo ‘ioiô’ (yo-yo).

O flywheel usa um disco (ou volante) giratório conectado a uma corda ou fita. Quando o praticante aplica força na fase concêntrica, o disco acelera e armazena energia cinética.

Assim como um ioiô, quando a força deixa de ser aplicada, o disco continua girando devido à inércia (corpo em movimento tende a continuar em movimento, lembra?), puxando a corda ou fita de volta, e assim exigindo que o praticante controle a desaceleração na fase excêntrica.

A força excêntrica será, portanto, proporcional à força que você induziu na fase concêntrica.

As máquinas flywheel mais modernas, usadas normalmente em pesquisas científicas, possuem sensores embutidos, como encoders ópticos, dinamômetros e acelerômetros, bem como softwares integrados.

Considerando o momento de inércia do volante (em kg.m²), o qual depende do tamanho do raio do volante, o software consegue calcular força (N), potência (W), velocidade angular (rad/s) e energia (J).

Obviamente, para o treinamento diário não são necessárias máquinas tão sofisticadas. Entretanto, você também não conseguirá saber exatamente o quanto de força está produzindo.

O flywheel também é isoinercial. Isso porque a resistência do equipamento é proporcional à força que o praticante faz. Mas, como mostrei no início do post, não é a única coisa isoinercial.   

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Para além do fato de que o flywheel não depende da aceleração da gravidade, enquanto o treinamento com peso, sim, há outra diferença importante entre eles. Essa diferença está no ‘tempo da definição da resistência’.

Podemos dizer que o peso fixo (tradicional) é uma espécie de isoinercial “a priori”. Isso porque sua resistência (ex: halteres, barras, anilhas) já está pré-determinada antes do movimento. A resistência é a própria massa (kg). O peso (massa x aceleração da gravidade) também é constante, porque a gravidade não muda.

Poderíamos chamar de resistência passiva, pois, independentemente da força aplicada, o peso não muda. Ou seja, a resistência não se adapta ao esforço do praticante.

Já o sistema flywheel seria uma espécie de isoinercial “a posteriori”. A resistência não é fixa, mas gerada dinamicamente em resposta à força aplicada pelo praticante.

Quanto maior a força concêntrica exercida, maior será a resistência excêntrica subsequente. Poderíamos chamar de ‘resistência responsiva’, pois a resistência se adapta à execução do movimento.

Como se percebe, o flywheel também é um tipo de resistência variável. Cabe no chamado ‘accommodated resistance training’, o qual expliquei no post O que é Melhor na Musculação: Pesos, Máquinas ou Elásticos? Entenda que a resistência varia conforme a força aplicada.

Exemplo: suponha 10 repetições, com força máxima, usando peso livre, dando menos de 3 min de descanso entre cada repetição. Ou seja, é como se fossem 10 testes de 1 RM seguidos. 

Na primeira repetição (primeiro teste), venceremos uma carga maior que na última, em virtude do processo de fadiga. 

No flywheel isso ocorre de forma dinâmica durante as repetições seguidas. O sistema permite que coloquemos o máximo de força a cada repetição.

E se impormos o máximo de força por repetição, é claro que na última repetição já não estaremos com a mesma capacidade, porque a fadiga é um processo. 

E isso difere das repetições seguidas com peso livre, uma vez que não é possível impor o máximo de força nas primeiras repetições feitas com cargas submáximas.

Em resumo, embora o flywheel seja isoinercial por definição, dinamicamente pode ser comportar como resistência variável. Já o peso livre é isoinercial do início ao fim da série de exercício.

Dessa forma, julgo incorreta essa coisa de vender o ‘isonercial’ (talvez pela palavra ser ‘diferentona’ para a maioria das pessoas, incluindo profissionais da área) em vez de oferecer especificamente o sistema flywheel.  Seria mais honesto e evitaria mais confusão na nossa área.

Inclusive porque, se fosse para vender o ‘isoinercial’, seria mais correto falar de todas as formas de treino isoinercial. Uma vez que, cientificamente falando, até o momento, o flywheel não tem produzido resultados superiores para hipertrofia muscular, quando comparado a pesos livres e máquinas convencionais com padrão de movimento similar. Veja as evidências:

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Encontrei uma revisão sistemática recente que objetivou investigar se o treinamento com resistência variável gerava hipertrofia diferente do treinamento com resistência constante (Fuentes‑García et al., 2024).

Os autores aceitaram desde medidas ruins (ex: fita métrica) até ressonância magnética, que é padrão ouro. O público foi heterogêneo (destreinados a atletas), e as comparações também. E apesar dessa complacência metodológica, eles só conseguiram incluir 12 artigos. 

Dos estudos incluídos, os autores classificaram 7 como flywheel, 2 como isocinético, 2 com sobrecarga na fase excêntrica e 1 que comparou a máquina pulley vs. peso livre.

Esses 7 estudos com flywheel foram comparando máquinas flywheel com diferentes tipos de máquinas (polias CAM system, leg press, cadeira extensora, máquina rosca bíceps). E não houve qualquer vantagem estatística a favor do flywheel para hipertrofia muscular.

Há também o estudo de Maroto-Izquierdo et al. (2020), não citado pela revisão, que comparou o flywheel com uma máquina pneumática, ambas não dependentes de gravidade, mas a pneumática sendo de carga constante. O resultado para hipertrofia de músculos da articulação do ombro também foi similar.

Mas precisamos certamente de mais estudos originais e de revisões melhores que a de Fuentes‑García et al (2024), inclusive porque não é uma metanálise.

Há sugestão de que o tipo de adaptação hipertrófica gerado pelo flywheel possa ser diferente de máquinas e pesos livres.

Por exemplo, Banks et al. (2024) compararam o flywheel vs. treinamento com pesos livres e cabos (dependentes da gravidade).

Comparado ao treinamento dependente de gravidade, o flywheel aumentou mais o comprimento do fascículo e gerou mais hipertrofia na região distal do vasto lateral.

Por outro lado, o treinamento dependente de gravidade aumentou mais o ângulo de penação e gerou mais hipertrofia na região proximal do vasto lateral.

Esse resultado sugere que essas formas de treinamento possam ser complementares para hipertrofia. Entretanto, há resultados conflitantes:

Por exemplo, Lundberg et al. (2019) compararam a cadeira extensora com tecnologia flywheel vs. cadeira extensora tradicional (não dá para ter certeza se era CAM system… falo mais do CAM system no post O que é Melhor na Musculação: Pesos, Máquinas ou Elásticos?).

Uma diferença importante em relação ao estudo de Banks et al. (2024) é que Lundberg et al. (2019) usaram um desenho intra-sujeito, onde uma perna treinava com flywheel e a outra perna, da mesma pessoa, treinava com a máquina tradicional.

Um parêntese: o desenho intra-sujeito é, na minha opinião, o melhor desenho experimental para investigar hipertrofia, por anular a variação entre-sujeitos, que é aquilo que mais “contamina” os resultados hipertróficos.

Mas Lundberg et al. (2019) não encontraram qualquer diferença hipertrófica para os músculos anteriores da coxa, nem mesmo na comparação por região muscular (proximal vs distal).

Ou seja, há risco de que os resultados de Banks et al. (2024) sejam explicados pela variabilidade entre-sujeitos.

Não há a menor dúvida de que o flywheel promove ótima taxa de hipertrofia muscular (Maroto-Izquierdo et al., 2017). Os primeiros estudos até foram sugestivos que o flywheel promovia resultados superiores ao treinamento isocinético (Wernbom et al., 2007).

Dá para afirmar seguramente que o flywheel não é pior que o treinamento tradicional. Mas ainda não dá para afirmar que é melhor.

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Para concluir: eu já experimentei o sistema flywheel, e gostei muito. A plataforma que usei, similar a essa da foto abaixo, ocupa pouco espaço, permite fazer vários exercícios diferentes, com a qualidade adicional de podermos dosar o quanto de força queremos impor (submáximo ou máximo).

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Além disso, sem a necessidade de ficar colocando e tirando anilhas. E anilhas são caras, de modo que um equipamento que dispense anilhas é uma grande coisa.

Recomendo o sistema flywheel. Se eu fosse montar uma academia ou estúdio fitness, eu estaria muito inclinado a comprar essas máquinas.

Mas temos que apresentar o conhecimento produzido com correção, para não alimentarmos charlatões. O sistema é ótimo, mas não é a revolução do fitness. Não é a revolução para os ganhos de massa muscular. E nem é a única coisa isoinercial.

Então, amiga e amigo, é isso... Obrigado por ler até aqui. E se você gostou, curta o post e compartilhe com colegas e amigos/as ou em suas redes sociais. E quem quiser receber as novas postagens deste Blog, basta clicar aqui para se inscrever na Newsletter.


Lunz, W. Flywheel Training é REALMENTE melhor? Ano: 2025. Link: https://www.wellingtonlunz.com.br/post/treinamento-flywheel-funciona [Acessado em __.__.____].

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professor wellington lunz

Autor: Wellington Lunz é o proprietário desse Blog e do site www.wellingtonlunz.com.br. Tem se dedicado em transmitir conhecimentos baseados em evidências em diferentes áreas do conhecimento (ex: hipertrofia muscular, treinamento de força, musculação, fisiologia do exercício, flexibilidade). É bacharel e licenciado em Educação Física, Mestre em Ciência da Nutrição e Doutor em Ciências Fisiológicas. Atualmente é Professor Associado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Contato pelo site ou e-mail: welunz@gmail.com.br  





 
 

2 Comments

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Divo Zaniqueli
Divo Zaniqueli
Mar 11
Rated 5 out of 5 stars.

Sensacional a análise crítica. Esse Blog deveria ser obrigatório para estudantes (e até professore), minimamente preocupados em aprender e transmitir conhecimentos com isenção e rigor.

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Blog Prof. Wellington Lunz
Blog Prof. Wellington Lunz
Mar 14
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Muito obrigado, meu amigo!

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